Uma caminhada com endereço certo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a Salvador nesta sexta-feira para uma caminhada marcada para as 16h no bairro da Liberdade, tradicional reduto petista na capital baiana. A mudança de local — cogitado inicialmente para a Barra — não é acidental: a Liberdade concentra o eleitorado historicamente mais fiel ao PT e funciona como palco simbólico para o recado que Lula quer deixar às vésperas da fase decisiva da campanha ao governo do estado.
O objetivo declarado da visita é reforçar publicamente o nome de Jerônimo Rodrigues (PT), candidato à reeleição, ao lado de lideranças como Jaques Wagner e Rui Costa. Mas o pano de fundo da agenda é outro: neutralizar o chamado “voto Lula-Neto”, fenômeno eleitoral que já havia aparecido em 2022 e voltou a ganhar força nesta reta final de 2026 — parcela do eleitorado lulista que declara apoio ao presidente, mas migra o voto estadual para ACM Neto (União Brasil).
O cálculo por trás da agenda relâmpago
A passagem de Lula por Salvador é rápida: chegada nesta sexta, caminhada à tarde e viagem ainda hoje para Belo Horizonte, onde participa de agenda com mulheres neste sábado. No domingo, o presidente segue para Brasília para gravar programas eleitorais. É uma escala pontual dentro de um giro nacional mais amplo, o que reforça a leitura de que a presença na Bahia tem propósito específico: sustentar a candidatura de Jerônimo Rodrigues num momento em que as pesquisas mostram disputa acirrada.
Para ACM Neto, o fenômeno do “voto casado” com Lula é tratado como estratégia consciente e, de certa forma, favorável: ao evitar criticar diretamente o presidente ou o governo federal e concentrar as farpas em Jerônimo Rodrigues, o candidato do União Brasil tenta atrair o eleitor que aprova Lula nacionalmente, mas quer mudança no comando estadual.
O que dizem os números
A mais recente pesquisa Quaest, divulgada nesta semana, mostra a disputa tecnicamente empatada. Na modalidade estimulada — quando os nomes dos candidatos são apresentados ao entrevistado —, ACM Neto aparece com 39% e Jerônimo Rodrigues com 37%. Já na espontânea, quando o entrevistado precisa citar o nome sem estímulo, a ordem se inverte: Jerônimo Rodrigues soma 43% contra 40% de ACM Neto. O levantamento também indica que 53% dos entrevistados avaliam que o petista merece ser reeleito.
Os números confirmam um cenário de equilíbrio que deve se acirrar ainda mais a partir da próxima semana, quando começa oficialmente a propaganda eleitoral no rádio e na televisão — o que tende a redesenhar o tabuleiro da campanha na Bahia nos próximos dias.
O tabuleiro que se desenha
A vinda de Lula a Salvador escancara uma disputa que vai muito além do embate entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto: é também um teste de força do lulismo no principal reduto eleitoral do PT no Nordeste. Com a corrida tecnicamente empatada e a propaganda eleitoral prestes a começar, cada gesto simbólico — como escolher a Liberdade em vez da Barra — passa a valer como estratégia de voto. Resta saber se o esforço presidencial será suficiente para dissolver o “voto Lula-Neto” antes que ele se consolide nas urnas.
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